Tem conversa que a gente adia a vida inteira. “Depois eu falo.” “Não é a hora.” “Vou estragar o clima do almoço.” E assim, ano após ano, o assunto mais importante, o que a família vai fazer quando um de nós faltar, nunca sai do lugar.
Não é falta de amor. É justamente porque a gente ama que evita o assunto. Só que existe uma diferença entre respeitar o tempo de cada um e deixar o medo decidir por todo mundo. Aqui no Memorial Guararapes, cemitério e crematório em Jaboatão dos Guararapes, a gente reuniu algumas formas de abrir essa conversa com os pais e avós sem pressa e sem transformar um gesto de cuidado num assunto pesado.
Porque, para muita gente, tocar no assunto da morte parece uma forma de convidar o problema. Acontece o contrário: falar com calma, antes que seja urgente, é o que evita que a dor do luto venha junto com decisão tomada às pressas.
É um tabu cultural, não uma regra da natureza. Em muitas famílias brasileiras ainda existe a ideia de que falar de morte dá azar, ou de que perguntar aos pais sobre o que eles querem é sinal de pressa para que algo aconteça. O resultado é que os filhos não perguntam, os pais não contam, e ninguém decide nada. Até que a decisão precise sair em cima da hora, no pior momento possível.
O silêncio não protege ninguém. Ele transfere o peso da decisão para o momento em que a família está mais frágil e menos preparada para decidir bem.
Quem já precisou organizar um velório sem saber o que a pessoa queria sabe do que estamos falando. É jazigo ou cremação, documentação, valores, tudo isso no meio do luto. Ter essa conversa antes, enquanto todo mundo está bem e com calma para pensar, é o que transforma um momento de crise em um momento de cuidado que já estava resolvido.
Não existe roteiro perfeito. Mas algumas formas de abrir o assunto costumam funcionar melhor do que sentar todo mundo para uma conversa séria.
Uma ressalva importante: essas dicas partem do cenário mais comum, o de uma família em que todo mundo está bem de saúde. Se a pessoa está fragilizada, doente ou em tratamento, avalie com cuidado se é o momento, porque aí a mesma pergunta pode soar como aviso, e não como cuidado. E se já existe conflito na família sobre o assunto, pode ser melhor conversar primeiro com quem é mais próximo, ou pedir ajuda de alguém em quem todos confiem.
Respeite o tempo da pessoa e deixe a porta aberta. Não insista, mas deixe claro que você está disponível para quando ela quiser falar, e que a pergunta veio de cuidado, não de urgência.
É comum a primeira tentativa não avançar. Recuar com respeito costuma abrir mais espaço do que insistir. Muitas famílias acabam encontrando o próprio momento, às vezes numa data em que já estão reunidas e o clima é de gratidão, como o Dia dos Pais ou o Dia dos Avós. A data ajuda a conversa a acontecer com naturalidade, mas ela não precisa ser o motivo da conversa. Forçar o assunto para aproveitar a ocasião costuma ter o efeito contrário.
Imagine atravessar o luto com amparo e estrutura. A vontade dos seus pais e avós já é conhecida, a família não precisa adivinhar nem decidir tudo sozinha em poucas horas. Essa é a diferença entre reagir e prevenir, e ela começa numa conversa, muito antes de qualquer contrato ou papel.
Perguntar não apressa nada. A conversa que a gente adia não desaparece, ela só espera o pior momento para acontecer. Falar sobre isso enquanto todo mundo está bem devolve à família o direito de decidir com calma, e a quem você ama a certeza de que a vontade dele vai ser respeitada. Não precisa ser hoje e não precisa ser tudo de uma vez. Precisa só começar.
Se a sua família já decidiu que quer conversar sobre planejamento, mas não sabe por onde começar a parte prática, a nossa equipe pode ajudar com informação, sem compromisso e sem pressa. A ideia não é vender um plano. É dar à sua família o que falta para que a conversa em casa seja mais tranquila.
Leia também: O que ninguém te conta sobre o luto: guia prático para proteger sua família da burocracia e Cinzas: jazigo, ossário ou cinerário?
Qual a melhor idade para falar sobre planejamento funerário com os pais?
Não existe uma idade certa. O melhor momento é quando todos estão bem de saúde e com calma para conversar, e não numa emergência.
É errado falar sobre isso no Dia dos Pais ou Dia dos Avós?
Não. Datas de gratidão costumam deixar o assunto mais natural, desde que a conversa seja conduzida com carinho, e não como um presente desconfortável.
Conversar sobre isso significa que algo vai acontecer em breve?
Não. Falar sobre planejamento é o contrário de estar esperando que algo aconteça. É se preparar com calma para quando, um dia, for preciso.
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